Reforma Tributária: O Risco Oculto para Mais de 60% das Empresas

Yuri Kiluanji 07/01/2026

Reforma Tributária: Um Desafio Urgente para Empresas Brasileiras

A tão aguardada Reforma Tributária do Consumo, já em vigor, ainda encontra a maioria das organizações brasileiras em um estado de despreparo considerável. Uma pesquisa recente, o Panorama do Contas a Pagar 2026, realizada pela plataforma de gestão de pagamentos Qive, revela um cenário preocupante: 40% das empresas sequer iniciaram a identificação dos impactos da reforma. Embora 25% planejem dar o pontapé inicial, apenas 38% deram de fato o primeiro passo no mapeamento dos efeitos, deixando os 62% restantes em um limbo de inércia.

O estudo, conduzido em parceria com a Opinion Box, ouviu 406 profissionais de empresas de diversos portes e setores em todo o Brasil. Os resultados destacam a urgência da situação.

O Risco da Inércia: O Que a Qive Alerta

Erika Daguani, CPO da Qive, ressalta a importância de reverter esse quadro: "O dado de que boa parte das companhias ainda não iniciou seu mapeamento nos chama atenção, já que é um fator de risco que poderia ser mitigado. A transição exigirá a revisão estrutural de processos e sistemas, e não apenas adequações pontuais." Ela complementa, afirmando que "As companhias que iniciarem este processo maior cedo terão mais capacidade de transformar a obrigação em vantagem competitiva".

Automação e Maturidade Fiscal: Um Divisor de Águas

A pesquisa também aponta para a divisão entre as empresas em relação à gestão fiscal. Metade das organizações consultadas já utiliza algum sistema integrado de gestão (ERP) ou plataformas que automatizam funções como geração de relatórios (20%), entrada de documentos (15%) e cadastros (15%). No entanto, a conferência de documentos figura entre as tarefas menos automatizadas, com apenas 11% de adesão.

Com a implementação da Reforma Tributária do Consumo (RTC) a partir de 2026, a intenção de automatizar e/ou aumentar a periodicidade da conferência é expressa por 60% dos entrevistados. Contudo, um grupo ainda considerável permanece sem planos concretos.

Daguani explica que essa dicotomia reflete a maturidade da gestão fiscal: "Organizações com processos digitalizados e governança fiscal sólida tendem a enxergar oportunidades estratégicas. Já as que ainda enfrentam ineficiências internas estão mais propensas a ver a reforma como uma ameaça".

PMEs em Desvantagem: Um Alerta para Pequenas e Médias Empresas

A pesquisa revela um abismo entre os portes das empresas em termos de preparo. Enquanto empresas de grande porte demonstram maior proatividade, com 85% acompanhando notas técnicas, 75% revisando processos e ERPs, e 70% realizando simulações, o cenário é distinto para as PMEs.

60% das PMEs reconhecem não ter iniciado nenhuma ação preparatória, um quadro que pode resultar em maior dependência de suporte externo e custos de adaptação elevados nos primeiros anos de transição.

O Backoffice em Destaque: A Nova Fronteira Estratégica

A criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) trará uma lógica de apuração e escrituração fiscal mais rigorosa, tornando processos manuais cada vez menos viáveis. A necessidade de revisar rotinas de faturamento, compliance e a integração entre áreas como TI, fiscal, compras e jurídico se torna crucial. Ajustes em sistemas, documentos fiscais, inclusão de novos campos e a alteração do CNPJ para o formato alfanumérico são algumas das adaptações necessárias.

"O novo modelo tributário exigirá que as organizações tratem o backoffice com a mesma atenção estratégica que dão à frente de receita. Automatizar a conferência e o fluxo de documentos fiscais não será apenas uma questão de eficiência, mas de sobrevivência", alerta Daguani. Ela enfatiza que a coexistência de dois sistemas tributários por anos pode gerar inconsistências, perda de crédito e risco de autuação em processos manuais ou pouco integrados.

Split Payment e Crédito Tributário: Os Temas Quentes da Reforma

Um levantamento complementar da Qive, focado no impacto dos 544 artigos da Reforma Tributária por setor, identificou os temas de maior interesse e preocupação das empresas brasileiras: "split payment" (pagamento dividido no B2B) e "crédito tributário".

O split payment, que prevê o recolhimento automático de impostos no ato do pagamento, gera apreensão em setores como tecnologia, varejo e serviços, devido ao seu impacto direto no fluxo de caixa. Já o crédito tributário reflete dúvidas sobre o direito a créditos e o risco de perda ou acúmulo caso o fornecedor não tenha recolhido o tributo corretamente.

"Ambos concentram a dor real dos negócios: como manter a liquidez e garantir compliance ao mesmo tempo", conclui Erika Daguani.

Em suma, a Reforma Tributária impõe um chamado à ação imediata. Empresas que não se prepararem adequadamente para a complexidade e as novas exigências correm o risco de enfrentar sérias dificuldades e perder vantagens competitivas em um cenário cada vez mais digital e regulamentado.

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